Desde o início de 2026, uma das perguntas mais buscadas no Google sobre separação é exatamente essa: dá mesmo para fazer divórcio pelo celular? A resposta curta é sim. A resposta completa é: depende e o que vem antes de apertar qualquer botão é o que vai definir o quanto você sai ganhando ou perdendo nesse processo.
O Conselho Nacional de Justiça regulamentou a possibilidade de o divórcio extrajudicial ser realizado de forma totalmente digital, via cartório habilitado. Não é mais necessário ir pessoalmente ao cartório em muitos casos. O procedimento pode ser feito à distância, com assinatura eletrônica, e isso tornou o processo mais rápido e acessível do ponto de vista burocrático.
Mas acessível não significa simples.
O divórcio extrajudicial, seja presencial ou digital, tem requisitos que precisam ser preenchidos antes de qualquer coisa. O casal precisa estar de acordo com tudo: partilha de bens, eventual pensão alimentícia, e o que fazer em relação aos filhos, se houver. Se houver filhos menores ou incapazes, o processo já não pode ser feito em cartório vai para a Justiça, independentemente de o casal concordar em tudo. Essa é a primeira coisa que muita gente descobre tarde demais.
Quando os dois concordam e não há filhos menores envolvidos, o cartório pode ser o caminho certo. E com a possibilidade digital, o processo ficou ainda mais ágil. O custo varia dependendo do estado e do cartório escolhido.
O problema não está no processo em si. Está no que vem antes.
Para assinar o acordo, o casal precisa ter definido exatamente o que vai ser partilhado, quem fica com o quê, se alguém vai receber pensão, por quanto tempo e em qual valor. Essas definições parecem simples quando o relacionamento terminou bem. Mas quando você coloca no papel, aparecem decisões que ninguém tinha calculado: o imóvel que ainda está financiado fica com quem? Quem assume as parcelas que restam? O carro que está no nome de um mas era usado pelos dois entra na partilha? A dívida do cartão contraída durante o casamento é de um ou de ambos?
Se você não souber responder a essas perguntas com clareza antes de chegar ao cartório, há dois caminhos: ou o processo trava na hora da lavratura, ou você assina algo que parecia razoável no momento mas que vai te custar caro daqui a seis meses. Bens financiados no divórcio são uma das situações que mais geram conflito depois da separação formalizada exatamente porque ninguém pensou nisso com cuidado antes de assinar.
Existe outra situação que também aparece com frequência: a mulher entra no processo acreditando que o divórcio consensual é sempre a melhor opção porque é mais rápido e mais barato. E pode até ser. Mas o que ninguém conta é que o acordo que você fecha no cartório tem o mesmo poder de uma decisão judicial. Depois que está assinado e registrado, voltar atrás exige outro processo (dessa vez na Justiça) e com inúmeros requisitos para ser possível. O que parece um acordo razoável na hora pode ser, na prática, uma renúncia a direitos que você não sabia que tinha.
A pensão alimentícia é um exemplo típico. Muitos casais optam por não incluir pensão no acordo porque “vai ser amigável” ou “a gente se resolve”. Mas se a sua renda é inferior à do ex-cônjuge, se você abriu mão da carreira durante o casamento, se você vai ficar com os filhos a maior parte do tempo, esses são fatores que podem fundamentar um pedido de alimentos. Assinar que abre mão disso sem entender o que está cedendo pode ser um erro com consequências financeiras reais.
O CNJ disponibiliza informações sobre serviços extrajudiciais e cartórios habilitados para o divórcio digital. Isso facilita encontrar o cartório certo, verificar requisitos e até iniciar o processo. O acesso ao sistema melhorou muito e isso é um avanço genuíno.
Mas nenhum sistema digital substitui a avaliação do que é justo para você especificamente, no seu contexto, com o seu patrimônio e a sua história dentro do casamento.
O divórcio pelo celular existe, funciona e pode ser a melhor saída para você. O que precisa acontecer antes é uma conversa honesta sobre o que está em jogo: bens, dívidas, filhos, pensão, para que o que você assina de forma ágil não seja uma decisão apressada com efeito permanente.
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